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Embora falar de mercado de petróleo pareça um assunto muito distante, a verdade é que seus preços impactam mais as nossas vidas do que imaginamos, pois está ligado a muitas atividades da economia começando pela gasolina que colocamos no carro até operações do setor industrial. Por isso é de vital importância compreender as forças determinantes do preço em seu mercado para analisar como suas variações podem afetar o cenário atual do mundo financeiro.

Quem é quem no mercado de petróleo

Como qualquer mercado, o preço do petróleo é determinado pela interação de forças de oferta e demanda. Mas o que é interessante notar é que, de acordo com informações publicadas pelos EUA Energy Information Administration em julho deste ano, a produção total foi de 88,72 milhões de barris por dia ou Mbd, contra um consumo de 93,42. Isso significa que, por enquanto, há excesso de demanda que é suprida pelos estoques, mantendo o preço relativamente alto. Vale ressaltar que não há uma tendência definida neste mercado, pois pode oscilar entre excesso de demanda e excesso de oferta, acumulando ou utilizando estoques conforme o caso.

O primeiro passo para analisar o mercado de petróleo é saber quem são os players mais relevantes, a fim de entender como suas interações e decisões moldam o preço do petróleo. Assim, a figura 1 mostra os dois lados com os 6 principais países consumidores e produtores.

Produção mundial julho de 2020                                                                  Consumo mundial julho de 2020

Gráfico 1. Elaboração. Análise de Gandini. Data U.S. Administração de informações de energia

 

Uma das particularidades do mercado de petróleo é que o máximo produtor corresponda à Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), grupo de 13 países que formaram o que em economia se chama cartel, entre os Destacam-se Arábia Saudita, Iraque, Emirados Árabes Unidos e Irã como os maiores produtores.

No entanto, o poder de controle da oferta de petróleo bruto deste grupo mudou drasticamente desde 2014, ano que marcou a queda dos preços do petróleo devido à implementação em larga escala do fracking nos Estados Unidos, o que levou esse país a se converter no segundo produtor mundial com uma participação de 19,63%. Essa nova dinâmica e o retorno do Irã aos mercados internacionais – depois que o governo Obama chegou a um acordo de supervisão para evitar o enriquecimento de urânio naquele país – levou o mercado a experimentar um excesso de oferta que fez o preço de referência Brent cair, que passou de $ 115 por barril para $ 27 entre 2014 e 2016.

Esse excesso de produção se tornou uma força determinante e estrutural no mercado de petróleo, de modo que a Opep decidiu cortar sua produção. O problema, nesse caso, era que, com cerca de 30% da oferta mundial sob seu controle, seu escopo não era um vetor determinante. Para reverter, juntou-se a outros produtores como Rússia e México, dando origem à chamada OPEP+ que em 2018 decidiu fazer o primeiro de vários cortes em sua produção para aumentar artificialmente os preços, brevemente ultrapassando 80 dólares o barril.

A conjuntura atual

Uma vez compreendido o contexto histórico do mercado de petróleo, pode-se ver como essas forças foram sujeitas aos efeitos disruptivos que a pandemia trouxe consigo. O gráfico 2, que podemos ver a seguir, mostra o comportamento de duas referências importantes do petróleo bruto no último ano: o Brent do Mar do Norte, que é negociado principalmente em Londres, e o WTI ou West Texas Intermediate, que é negociado em Estados Unidos.

Gráfico 2. Elaboração. Análise de Gandini. Dados Bloomberg

 

O primeiro fato que se destaca é o preço negativo de -$37,63 do WTI no dia 23 de abril, o que é sem dúvida um marco histórico no mercado de petróleo que foi originado por uma combinação de fatores, tanto de oferta como de demanda.

O que aconteceu em abril remonta a janeiro, quando os casos de Covid-19 na China começaram a aumentar e setores começaram a fechar por motivos de saúde. Isso afetou a demanda por petróleo bruto, uma vez que, conforme mostra o gráfico 1, este país é o segundo consumidor – apesar de ser o quinto produtor – o que significa que é importador líquido.

Com a propagação do vírus para diversos países, o excesso de oferta chegou a 9,47 milhões de barris por dia em março. E embora a pandemia tenha desempenhado um papel nisso, em março ocorreu também o que é conhecido como a guerra de preços entre a Rússia e a Arábia, as duas grandes forças por trás dos acordos OPEP+.

Esse conflito foi desencadeado pela estratégia russa de sair dos acordos de corte de produção da OPEP+ em busca de inundar os mercados para reduzir o preço e afetar a indústria do óleo de xisto nos Estados Unidos e a resposta árabe de também aumentar sua produção. Isso, somado ao enfraquecimento da demanda de cada vez mais países com setores econômicos fechados na pandemia, fez com que esse excesso de oferta em abril chegasse a 19,62 milhões de barris por dia.

E a situação ficou ainda mais complicada. A capacidade de armazenamento que vinha enchendo desde janeiro atingiu níveis máximos para o benchmark WTI. Como não havia onde armazenar o petróleo e sendo 23 de abril último dia de negociação do contrato futuro com vencimento em abril, os investidores que não quisessem ficar com o petróleo literalmente tiveram que pagar para vender seus barris, o que se traduziu em um preço negativo.

É importante notar que, embora os preços do Brent não tenham atingido níveis negativos por haver maior capacidade de armazenamento, o efeito do excesso de oferta global foi sentido e o levou ao mínimo histórico de US $ 19,99.

Atualmente, as forças de mercado estão corrigindo essa tendência com planos para reabrir as economias mundiais e reativar a demanda. Além disso, a OPEP+ fez um corte histórico, primeiro de 9,7 mbd e depois de 7,7 mbd, o que resultou em trazer o Brent para níveis de $45 dólares.

No entanto, várias questões ainda precisam ser respondidas. A primeira é se essas reaberturas podem ser sustentadas ao longo do tempo ou se novas ondas do vírus levarão a revertê-las, reduzindo a demanda novamente. Outra questão é por quanto tempo os produtores conseguirão manter cortes historicamente elevados, às custas de sua receita ser afetada. Essas são as questões que examinaremos nos próximos meses, a fim de entender melhor para onde o futuro do mercado de petróleo irá.

 

Relatório elaborado pela Gandini Analysis for SupraBrokers apenas como conteúdo e em nenhum caso é considerado recomendação de investimento.

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